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Estou grávida e agora? Guia dos primeiros passos

8 de junho de 2026 Publicado

Equipa editorial Vamos Ser Pais

Acabaste de descobrir que estás grávida. Marcar consulta, iniciar suplementos, perceber os exames — o guia para as primeiras semanas, direto e sem alarmismo.

O teste deu positivo. E agora?

Respira fundo. Não precisas de fazer tudo hoje.

O teste de farmácia ou a análise ao sangue (beta-hCG) confirmaram o que suspeitavas. Os sentimentos podem ser uma montanha-russa: alegria, ansiedade, medo, incredulidade — tudo é normal. Cada mulher reage à sua maneira, e não há uma forma "correta" de sentir.

O que importa agora é o que vem a seguir. Este guia cobre os primeiros passos — sem dramatismo, sem excesso de informação, mas com tudo o que precisas de saber para começar a gravidez com confiança.


Primeiros passos (ainda hoje)

1. Marca uma consulta de vigilância de gravidez

O mais rápido possível, idealmente entre as 6 e as 8 semanas (contando a partir do primeiro dia da última menstruação). Podes fazer pelo:

  • SNS — O teu médico de família encaminha-te para a consulta de vigilância. É gratuito, mas os tempos de espera variam consoante a zona do país.
  • Privado — Marca diretamente com um ginecologista/obstetra. Mais rápido, com custo associado (consulta + exames). Muitos seguros de saúde têm planos de parto a preços fixos.

2. Começa a tomar ácido fólico (se ainda não o fizeste)

A dose recomendada em Portugal é de 400 µg por dia, desde o período pré-concecional até ao final do primeiro trimestre. Se já estavas a tomar, continua. Se não, começa hoje — é o suplemento mais importante para prevenir defeitos do tubo neural do bebé.

3. Não pares medicação habitual sem falar com o médico

Muita gente pára tudo "para não fazer mal ao bebé" — e às vezes o contrário é que é perigoso. Antidepressivos, ansiolíticos, medicação para a tensão ou para a tiroide: não pares nada sem consultar. Pode ser preciso ajustar a dose, raramente parar.

4. Evita álcool e tabaco

Não há consumo seguro de álcool na gravidez. O tabaco aumenta o risco de aborto espontâneo, parto pré-termo e baixo peso à nascença. Se precisares de ajuda para deixar de fumar, fala com o teu médico.


O que acontece na primeira consulta?

A primeira consulta de vigilância é a mais longa e a mais importante. Vai incluir:

  • Confirmação da idade gestacional — com base na data da última menstruação e, quando possível, na ecografia
  • História clínica completa — doenças prévias, cirurgias, alergias, medicação habitual, histórico obstétrico
  • Exame físico — peso, tensão arterial, auscultação
  • Pedido de análises — grupo sanguíneo e fator Rh, rastreio de anemia, glicemia em jejum, serologias (VIH, hepatites, sífilis, toxoplasmose, rubéola, citomegalovírus), urina tipo II e urocultura
  • Entrega do Boletim de Saúde da Grávida — o documento oficial onde são registados todos os dados da vigilância. Leva-o a todas as consultas. É o teu Passaporte da Gravidez.

Ao todo, a Direção-Geral da Saúde (DGS) recomenda 8 a 10 consultas ao longo da gravidez, com uma periodicidade que aumenta a partir do terceiro trimestre.


Ácido fólico, ferro e outros suplementos

Suplemento Quando Porquê
Ácido fólico 400 µg Idealmente antes de engravidar até às 12 semanas Previne defeitos do tubo neural (espinha bífida)
Ferro A partir das 20 semanas (se necessário) Prevenir anemia — o volume sanguíneo aumenta 50% na gravidez
Vitamina D Se carências identificadas Importante para o desenvolvimento ósseo do bebé
Iodo Presente em muitos polivitamínicos para grávidas Essencial para o desenvolvimento neurológico

Não compres suplementos por iniciativa própria sem perceberes se precisas. Fala com o teu médico. Muitas grávidas só precisam do ácido fólico no primeiro trimestre.


Calendário de ecografias e análises

Ecografias obrigatórias

O SNS cobre três ecografias essenciais:

Idade gestacional Ecografia O que avalia
11 – 14 semanas Ecografia do 1.º trimestre (rastreio) Datação, número de fetos, translucência da nuca (rastreio de anomalias cromossómicas), batimento cardíaco
20 – 24 semanas Ecografia morfológica Anatomia fetal detalhada: cérebro, coração, rins, coluna, membros, órgãos abdominais
30 – 34 semanas Ecografia de crescimento Crescimento fetal, posição, volume de líquido amniótico, localização da placenta

Em contexto privado, podes fazer ecografias adicionais (por exemplo, ecografia 3D/4D, ou ecografias de conforto entre as obrigatórias) — mas nenhuma substitui as três ecografias de rastreio.

Análises ao longo da gravidez

  • 1.º trimestre: Rastreio combinado (ecografia + análises) para avaliar risco de trissomia 21, 18 e 13
  • 24 – 28 semanas: Prova de tolerância à glicose oral (75 g) — rastreio da diabetes gestacional (afeta 10-15% das grávidas)
  • 28 semanas: Nova avaliação de hemoglobina (rastreio de anemia)
  • 35 – 37 semanas: Zaragatoa vaginal e retal para rastreio de estreptococos do grupo B — se positiva, recebes antibiótico durante o trabalho de parto para proteger o bebé
  • 36 semanas: Hemograma, coagulação, serologias (repetição)

Rastreios importantes

Rastreio de aneuploidias (trissomias)

Feito no 1.º trimestre, combina a ecografia (translucência da nuca) com análises ao sangue (PAPP-A e beta-hCG livre). O resultado é uma probabilidade, não um diagnóstico.

  • Se o risco for baixo (< 1/200): rastreio concluído.
  • Se o risco for elevado (≥ 1/200): é oferecido um teste de diagnóstico invasivo — biópsia de vilosidades coriónicas (11-14 semanas) ou amniocentese (a partir das 15 semanas). Ambos têm uma taxa de deteção de ~100%, mas um risco de perda fetal de cerca de 0,5% (1 em 200).

Alternativa não invasiva: o teste de DNA fetal livre (cfDNA), feito por análise ao sangue da mãe a partir das 10 semanas, com sensibilidade acima de 99% para a trissomia 21. É pago (não comparticipado pelo SNS), mas não tem riscos de perda fetal.

Rastreio de diabetes gestacional

Feito entre as 24 e as 28 semanas: glicemia em jejum, seguida de ingestão de 75 g de glicose e novas colheitas ao fim de 1 hora e 2 horas. Se um único valor estiver alterado, o diagnóstico é confirmado.

Se tiveres fatores de risco (obesidade, historial familiar, idade ≥ 35 anos, diabetes gestacional anterior), o rastreio pode ser feito mais cedo.

Rastreio de pré-eclâmpsia

A pré-eclâmpsia é uma doença hipertensiva grave que afeta cerca de 2-8% das grávidas. O rastreio no 1.º trimestre combina:

  • Dados maternos (história, idade, peso, altura)
  • Pressão arterial média
  • Índice de pulsatibilidade das artérias uterinas (ecografia)
  • Doseamento de PlGF ou PAPP-A

Se o rastreio for positivo, o tratamento com ácido acetilsalicílico 150 mg ao deitar reduz significativamente o risco de desenvolver a doença.


Vacinas na gravidez

As vacinas recomendadas em Portugal durante a gravidez:

  • Tétano, difteria e tosse convulsa (dTpa) — entre as 24 e as 36 semanas. A tosse convulsa é particularmente perigosa para recém-nascidos; a vacina na mãe transfere anticorpos para o bebé que o protegem até ele ser vacinado.
  • Gripe — em qualquer trimestre, se a campanha sazonal estiver a decorrer.
  • COVID-19 — recomendada em qualquer trimestre, especialmente se houver fatores de risco.
  • Hepatite B — se não estiveres vacinada e tiveres fatores de risco.

Importante: vacinas com vírus vivos (sarampo, papeira, rubéola, varicela) são contraindicadas na gravidez. Devem ser feitas antes de engravidar.


Alimentação e cuidados

Não, não precisas de "comer por dois." A recomendação é aumentar 9 a 12 kg ao longo da gravidez (para um IMC normal antes de engravidar), com uma alimentação equilibrada.

O que evitar

  • Álcool — consumo zero durante toda a gravidez
  • Cafeína — reduz para ≤ 200 mg/dia (≈ 1 café expresso)
  • Carnes e peixes crus — sushi, carne mal passada, marisco cru (risco de toxoplasmose e listeriose)
  • Peixes com alto teor de mercúrio — peixe-espada, atum-rabilho, tubarão
  • Leite não pasteurizado e queijos de pasta mole não pasteurizados
  • Patês e produtos de charcutaria não embalados de origem conhecida

Prevenção da toxoplasmose

Se a análise mostrar que não tens imunidade à toxoplasmose (cerca de 70-80% das grávidas em Portugal já tiveram contacto):

  • Lava bem frutas e saladas
  • Come carne sempre bem passada
  • Lava as mãos depois de mexer em carne crua
  • Usa luvas para jardinagem ou lava bem as mãos
  • A limpeza da caixa do gato — pede a outra pessoa

O que deves privilegiar

  • Legumes e verduras (de preferência cozinhados ou muito bem lavados)
  • Fruta variada
  • Proteínas magras (frango, peru, peixe, ovos bem cozinhados, leguminosas)
  • Cereais integrais
  • Gorduras saudáveis (abacate, azeite, frutos secos)
  • Água — 1,5 a 2 litros por dia

Sinais de alerta — quando ir à urgência

Nem todas as queixas na gravidez são normais. Contacta o teu médico ou dirige-te a uma urgência de obstetrícia se tiveres:

  1. Hemorragia vaginal — qualquer perda de sangue, mesmo ligeira
  2. Dores abdominais intensas ou cólicas fortes e persistentes
  3. Febre (> 38 °C)
  4. Vómitos persistentes que te impedem de comer ou beber
  5. Dores de cabeça intensas e persistentes, especialmente se acompanhadas de visão turva ou pontos luminosos
  6. Inchaço súbito da cara, mãos ou pés
  7. Rotura de águas — perda de líquido em jato ou em pequena quantidade mas contínua
  8. Menos de 10 movimentos do bebé por dia (a partir das 24-26 semanas)
  9. Contrações regulares e dolorosas antes das 37 semanas

Não esperes para ver se passa. Em caso de dúvida, liga para a linha SNS 24 (808 24 24 24) ou vai ao hospital.


Direitos e licenças

Em Portugal, as grávidas têm proteções legais específicas:

  • Comunicação à entidade patronal — deves comunicar a gravidez por escrito, com pelo menos 15 semanas de antecedência em relação à data prevista do parto. Não precisas de o fazer antes — mas se os sintomas forem intensos (náuseas, cansaço, riscos no local de trabalho), faz sentido informares mais cedo para teres direito a adaptações.
  • Avaliação de riscos — a entidade patronal é obrigada a fazer uma avaliação dos riscos no teu posto de trabalho e a ajustar condições se necessário.
  • Dispensa para consultas — tens direito a faltar ao trabalho para consultas de preparação para o parto, sem perda de vencimento.
  • Proibição de despedimento — desde a confirmação da gravidez até 1 ano após o parto.
  • Licença parental — 120 dias consecutivos (ou 150 se partilhados), pagos a 80% ou 100% consoante a opção. Podes começar a licença até 30 dias antes da data prevista do parto.

O plano mês a mês (resumo)

Mês Semanas O que fazer
1 1–4 Teste positivo, marcar acompanhamento, rever medicação e iniciar ácido fólico
2 5–8 Primeira consulta, análises e ecografia precoce quando indicada
3 9–13 Ecografia do 1.º trimestre e rastreios entre as 11 e as 13 semanas + 6 dias
4 14–17 Confirmar próximas consultas e exames; contar a gravidez se e quando fizer sentido para ti
5 18–22 Ecografia morfológica, primeiros movimentos e, se quiseres, saber o sexo
6 23–27 Rastreio da diabetes gestacional entre as 24 e as 28 semanas; valorizar movimentos e sinais de parto prematuro
7 28–31 Início do 3.º trimestre, vacina Tdpa, resultados da diabetes gestacional e ecografia do 3.º trimestre se marcada para as 30–31 semanas
8 32–35 Consulta de termo, análises do 3.º trimestre, plano de parto e mala da maternidade
9 36–40 Rastreio de Streptococcus B se ainda não foi feito, posição do bebé, CTG/vigilância e sinais de parto

Lembra-te

  • Cada gravidez é única. O que se aplica à tua amiga pode não se aplicar a ti.
  • Faz perguntas. Na consulta, no centro de saúde, ao teu médico. Não há perguntas parvas.
  • Confia no teu corpo. A maioria das gravidezes corre bem. Os rastreios e exames existem para identificar os poucos casos que precisam de atenção extra.
  • Pede apoio. Se estás ansiosa, se tens medo, se não sabes o que fazer — falar com alguém de confiança ou com um profissional de saúde mental é um ato de cuidado, não de fraqueza.

Fontes