O teste deu positivo. E agora?
Respira fundo. Não precisas de fazer tudo hoje.
O teste de farmácia ou a análise ao sangue (beta-hCG) confirmaram o que suspeitavas. Os sentimentos podem ser uma montanha-russa: alegria, ansiedade, medo, incredulidade — tudo é normal. Cada mulher reage à sua maneira, e não há uma forma "correta" de sentir.
O que importa agora é o que vem a seguir. Este guia cobre os primeiros passos — sem dramatismo, sem excesso de informação, mas com tudo o que precisas de saber para começar a gravidez com confiança.
Primeiros passos (ainda hoje)
1. Marca uma consulta de vigilância de gravidez
O mais rápido possível, idealmente entre as 6 e as 8 semanas (contando a partir do primeiro dia da última menstruação). Podes fazer pelo:
- SNS — O teu médico de família encaminha-te para a consulta de vigilância. É gratuito, mas os tempos de espera variam consoante a zona do país.
- Privado — Marca diretamente com um ginecologista/obstetra. Mais rápido, com custo associado (consulta + exames). Muitos seguros de saúde têm planos de parto a preços fixos.
2. Começa a tomar ácido fólico (se ainda não o fizeste)
A dose recomendada em Portugal é de 400 µg por dia, desde o período pré-concecional até ao final do primeiro trimestre. Se já estavas a tomar, continua. Se não, começa hoje — é o suplemento mais importante para prevenir defeitos do tubo neural do bebé.
3. Não pares medicação habitual sem falar com o médico
Muita gente pára tudo "para não fazer mal ao bebé" — e às vezes o contrário é que é perigoso. Antidepressivos, ansiolíticos, medicação para a tensão ou para a tiroide: não pares nada sem consultar. Pode ser preciso ajustar a dose, raramente parar.
4. Evita álcool e tabaco
Não há consumo seguro de álcool na gravidez. O tabaco aumenta o risco de aborto espontâneo, parto pré-termo e baixo peso à nascença. Se precisares de ajuda para deixar de fumar, fala com o teu médico.
O que acontece na primeira consulta?
A primeira consulta de vigilância é a mais longa e a mais importante. Vai incluir:
- Confirmação da idade gestacional — com base na data da última menstruação e, quando possível, na ecografia
- História clínica completa — doenças prévias, cirurgias, alergias, medicação habitual, histórico obstétrico
- Exame físico — peso, tensão arterial, auscultação
- Pedido de análises — grupo sanguíneo e fator Rh, rastreio de anemia, glicemia em jejum, serologias (VIH, hepatites, sífilis, toxoplasmose, rubéola, citomegalovírus), urina tipo II e urocultura
- Entrega do Boletim de Saúde da Grávida — o documento oficial onde são registados todos os dados da vigilância. Leva-o a todas as consultas. É o teu Passaporte da Gravidez.
Ao todo, a Direção-Geral da Saúde (DGS) recomenda 8 a 10 consultas ao longo da gravidez, com uma periodicidade que aumenta a partir do terceiro trimestre.
Ácido fólico, ferro e outros suplementos
| Suplemento | Quando | Porquê |
|---|---|---|
| Ácido fólico 400 µg | Idealmente antes de engravidar até às 12 semanas | Previne defeitos do tubo neural (espinha bífida) |
| Ferro | A partir das 20 semanas (se necessário) | Prevenir anemia — o volume sanguíneo aumenta 50% na gravidez |
| Vitamina D | Se carências identificadas | Importante para o desenvolvimento ósseo do bebé |
| Iodo | Presente em muitos polivitamínicos para grávidas | Essencial para o desenvolvimento neurológico |
Não compres suplementos por iniciativa própria sem perceberes se precisas. Fala com o teu médico. Muitas grávidas só precisam do ácido fólico no primeiro trimestre.
Calendário de ecografias e análises
Ecografias obrigatórias
O SNS cobre três ecografias essenciais:
| Idade gestacional | Ecografia | O que avalia |
|---|---|---|
| 11 – 14 semanas | Ecografia do 1.º trimestre (rastreio) | Datação, número de fetos, translucência da nuca (rastreio de anomalias cromossómicas), batimento cardíaco |
| 20 – 24 semanas | Ecografia morfológica | Anatomia fetal detalhada: cérebro, coração, rins, coluna, membros, órgãos abdominais |
| 30 – 34 semanas | Ecografia de crescimento | Crescimento fetal, posição, volume de líquido amniótico, localização da placenta |
Em contexto privado, podes fazer ecografias adicionais (por exemplo, ecografia 3D/4D, ou ecografias de conforto entre as obrigatórias) — mas nenhuma substitui as três ecografias de rastreio.
Análises ao longo da gravidez
- 1.º trimestre: Rastreio combinado (ecografia + análises) para avaliar risco de trissomia 21, 18 e 13
- 24 – 28 semanas: Prova de tolerância à glicose oral (75 g) — rastreio da diabetes gestacional (afeta 10-15% das grávidas)
- 28 semanas: Nova avaliação de hemoglobina (rastreio de anemia)
- 35 – 37 semanas: Zaragatoa vaginal e retal para rastreio de estreptococos do grupo B — se positiva, recebes antibiótico durante o trabalho de parto para proteger o bebé
- 36 semanas: Hemograma, coagulação, serologias (repetição)
Rastreios importantes
Rastreio de aneuploidias (trissomias)
Feito no 1.º trimestre, combina a ecografia (translucência da nuca) com análises ao sangue (PAPP-A e beta-hCG livre). O resultado é uma probabilidade, não um diagnóstico.
- Se o risco for baixo (< 1/200): rastreio concluído.
- Se o risco for elevado (≥ 1/200): é oferecido um teste de diagnóstico invasivo — biópsia de vilosidades coriónicas (11-14 semanas) ou amniocentese (a partir das 15 semanas). Ambos têm uma taxa de deteção de ~100%, mas um risco de perda fetal de cerca de 0,5% (1 em 200).
Alternativa não invasiva: o teste de DNA fetal livre (cfDNA), feito por análise ao sangue da mãe a partir das 10 semanas, com sensibilidade acima de 99% para a trissomia 21. É pago (não comparticipado pelo SNS), mas não tem riscos de perda fetal.
Rastreio de diabetes gestacional
Feito entre as 24 e as 28 semanas: glicemia em jejum, seguida de ingestão de 75 g de glicose e novas colheitas ao fim de 1 hora e 2 horas. Se um único valor estiver alterado, o diagnóstico é confirmado.
Se tiveres fatores de risco (obesidade, historial familiar, idade ≥ 35 anos, diabetes gestacional anterior), o rastreio pode ser feito mais cedo.
Rastreio de pré-eclâmpsia
A pré-eclâmpsia é uma doença hipertensiva grave que afeta cerca de 2-8% das grávidas. O rastreio no 1.º trimestre combina:
- Dados maternos (história, idade, peso, altura)
- Pressão arterial média
- Índice de pulsatibilidade das artérias uterinas (ecografia)
- Doseamento de PlGF ou PAPP-A
Se o rastreio for positivo, o tratamento com ácido acetilsalicílico 150 mg ao deitar reduz significativamente o risco de desenvolver a doença.
Vacinas na gravidez
As vacinas recomendadas em Portugal durante a gravidez:
- Tétano, difteria e tosse convulsa (dTpa) — entre as 24 e as 36 semanas. A tosse convulsa é particularmente perigosa para recém-nascidos; a vacina na mãe transfere anticorpos para o bebé que o protegem até ele ser vacinado.
- Gripe — em qualquer trimestre, se a campanha sazonal estiver a decorrer.
- COVID-19 — recomendada em qualquer trimestre, especialmente se houver fatores de risco.
- Hepatite B — se não estiveres vacinada e tiveres fatores de risco.
Importante: vacinas com vírus vivos (sarampo, papeira, rubéola, varicela) são contraindicadas na gravidez. Devem ser feitas antes de engravidar.
Alimentação e cuidados
Não, não precisas de "comer por dois." A recomendação é aumentar 9 a 12 kg ao longo da gravidez (para um IMC normal antes de engravidar), com uma alimentação equilibrada.
O que evitar
- Álcool — consumo zero durante toda a gravidez
- Cafeína — reduz para ≤ 200 mg/dia (≈ 1 café expresso)
- Carnes e peixes crus — sushi, carne mal passada, marisco cru (risco de toxoplasmose e listeriose)
- Peixes com alto teor de mercúrio — peixe-espada, atum-rabilho, tubarão
- Leite não pasteurizado e queijos de pasta mole não pasteurizados
- Patês e produtos de charcutaria não embalados de origem conhecida
Prevenção da toxoplasmose
Se a análise mostrar que não tens imunidade à toxoplasmose (cerca de 70-80% das grávidas em Portugal já tiveram contacto):
- Lava bem frutas e saladas
- Come carne sempre bem passada
- Lava as mãos depois de mexer em carne crua
- Usa luvas para jardinagem ou lava bem as mãos
- A limpeza da caixa do gato — pede a outra pessoa
O que deves privilegiar
- Legumes e verduras (de preferência cozinhados ou muito bem lavados)
- Fruta variada
- Proteínas magras (frango, peru, peixe, ovos bem cozinhados, leguminosas)
- Cereais integrais
- Gorduras saudáveis (abacate, azeite, frutos secos)
- Água — 1,5 a 2 litros por dia
Sinais de alerta — quando ir à urgência
Nem todas as queixas na gravidez são normais. Contacta o teu médico ou dirige-te a uma urgência de obstetrícia se tiveres:
- Hemorragia vaginal — qualquer perda de sangue, mesmo ligeira
- Dores abdominais intensas ou cólicas fortes e persistentes
- Febre (> 38 °C)
- Vómitos persistentes que te impedem de comer ou beber
- Dores de cabeça intensas e persistentes, especialmente se acompanhadas de visão turva ou pontos luminosos
- Inchaço súbito da cara, mãos ou pés
- Rotura de águas — perda de líquido em jato ou em pequena quantidade mas contínua
- Menos de 10 movimentos do bebé por dia (a partir das 24-26 semanas)
- Contrações regulares e dolorosas antes das 37 semanas
Não esperes para ver se passa. Em caso de dúvida, liga para a linha SNS 24 (808 24 24 24) ou vai ao hospital.
Direitos e licenças
Em Portugal, as grávidas têm proteções legais específicas:
- Comunicação à entidade patronal — deves comunicar a gravidez por escrito, com pelo menos 15 semanas de antecedência em relação à data prevista do parto. Não precisas de o fazer antes — mas se os sintomas forem intensos (náuseas, cansaço, riscos no local de trabalho), faz sentido informares mais cedo para teres direito a adaptações.
- Avaliação de riscos — a entidade patronal é obrigada a fazer uma avaliação dos riscos no teu posto de trabalho e a ajustar condições se necessário.
- Dispensa para consultas — tens direito a faltar ao trabalho para consultas de preparação para o parto, sem perda de vencimento.
- Proibição de despedimento — desde a confirmação da gravidez até 1 ano após o parto.
- Licença parental — 120 dias consecutivos (ou 150 se partilhados), pagos a 80% ou 100% consoante a opção. Podes começar a licença até 30 dias antes da data prevista do parto.
O plano mês a mês (resumo)
| Mês | Semanas | O que fazer |
|---|---|---|
| 1 | 1–4 | Teste positivo, marcar acompanhamento, rever medicação e iniciar ácido fólico |
| 2 | 5–8 | Primeira consulta, análises e ecografia precoce quando indicada |
| 3 | 9–13 | Ecografia do 1.º trimestre e rastreios entre as 11 e as 13 semanas + 6 dias |
| 4 | 14–17 | Confirmar próximas consultas e exames; contar a gravidez se e quando fizer sentido para ti |
| 5 | 18–22 | Ecografia morfológica, primeiros movimentos e, se quiseres, saber o sexo |
| 6 | 23–27 | Rastreio da diabetes gestacional entre as 24 e as 28 semanas; valorizar movimentos e sinais de parto prematuro |
| 7 | 28–31 | Início do 3.º trimestre, vacina Tdpa, resultados da diabetes gestacional e ecografia do 3.º trimestre se marcada para as 30–31 semanas |
| 8 | 32–35 | Consulta de termo, análises do 3.º trimestre, plano de parto e mala da maternidade |
| 9 | 36–40 | Rastreio de Streptococcus B se ainda não foi feito, posição do bebé, CTG/vigilância e sinais de parto |
Lembra-te
- Cada gravidez é única. O que se aplica à tua amiga pode não se aplicar a ti.
- Faz perguntas. Na consulta, no centro de saúde, ao teu médico. Não há perguntas parvas.
- Confia no teu corpo. A maioria das gravidezes corre bem. Os rastreios e exames existem para identificar os poucos casos que precisam de atenção extra.
- Pede apoio. Se estás ansiosa, se tens medo, se não sabes o que fazer — falar com alguém de confiança ou com um profissional de saúde mental é um ato de cuidado, não de fraqueza.